Bem-vindo ao blog dedicado ao meu principal objetivo em minha passagem por este mundo, através da divulgação de qualquer material útil ou realmente necessário à humanidade em tempos tão decisivos: textos, músicas, imagens ou filmes de qualquer estilo (sejam obras de outros ou de minha própria autoria). Boa sorte, e divirta-se!, pois a alegria é o primeiro passo rumo à felicidade.

domingo, 3 de outubro de 2010

PENA DE MORTE



PARTE 1

Situando

Um dia, uma dúvida puramente humana nasceu. E por mais que refletisse, não conseguia me livrar dela. Até que tive um sonho.
A escuridão era total, e eu sentia o chão duro sob meus pés, de pedra ou concreto, talvez. Apesar da escuridão, entretanto, conseguia ver a criatura parada à minha frente. Como eu a via? Não faço idéia, simplesmente via.
Ela fixava em mim seus olhos negros. Há quem diga, eu sei, que ela tem dois riscos pretos no lugar dos olhos. Mas eu a vi, ainda que em sonho, e afirmo que ela tinha olhos, sim, embora negros. E eles nunca piscaram.
- Quem é você? eu perguntei estranhamente calmo.
- Você sabe quem eu sou.
A calma se foi.
- Se soubesse não estaria perguntando.
- Não é verdade. Você sabe e ainda assim está perguntando.
Eu tive que fechar os olhos e respirar fundo antes de falar. Quando abri os olhos, nada havia mudado.
- Tudo bem, você por um acaso tem o poder de ler mentes? Por que eu deveria saber quem você é?
- Porque é óbvio, até para pessoas bem menos inteligentes. Você sabe que está sonhando, portanto deixe de apelar para a racionalidade.
E era verdade. Por mais ridículo ou irracional que fosse, eu não podia ignorar o que via na condição em que via.
- Então... você é...
- Vamos, diga. – pressionou a criatura.
- Você é a morte. - eu disse resoluto e novamente calmo.
- Acertou.
Incontáveis perguntas passaram num relâmpago por minha mente, mas optei pela que julguei ser mais relevante no momento.
- Veio me buscar?
- Buscá-lo?
Ela pareceu achar graça.
- Como poderia? Estamos num sonho, e só posso levá-lo na vida real. Se fosse esse meu objetivo, acha que me daria ao trabalho de aparecer num sonho? Não, eu vim para ajudá-lo.
Eu não esperava por aquilo... ou será que esperava?
- Me ajudar? Por quê?
- Você sabe por quê.
- Não, não sei.
- É claro que sabe. E a maior prova disso é que, ao invés de perguntar com o que pretendo ajudá-lo, optou por um motivo. Você jamais perguntaria por que alguém que você nunca viu na vida iria ajudá-lo sem saber primeiramente a que tipo de ajuda o mesmo estaria se referindo, a não ser...
- A não ser o quê? Perguntei, pasmo.
- A não ser que já saiba ao que eu estou me referindo e esteja fugindo quase inconscientemente de algo que tenha muito medo de enfrentar, a ponto de ser tolo o bastante para agir como se a dúvida que agora está entranhada no âmago do seu ser não existisse.
- Okay – eu disse com toda calma, talvez por nunca ter sentido tanta raiva na vida. – Agora volte um pouco a fita. Por um acaso eu não poderia ser uma pessoa diferente, que foge dos padrões, e que devido aos princípios de uma filosofia bem formada goste de perguntar a quem lhe ofereça ajuda a razão por o estar fazendo antes de se voltar para a natureza da ajuda em si? Ah, e as pessoas nem sempre se dão ao trabalho de medir as palavras tão minuciosamente, sabe? Muitas vezes, ao perguntarem “por quê”, elas já esperam receber como resposta um motivo e uma circunstância, já que as duas coisas andam juntas.
- Não é o seu caso.
E era verdade, outra vez.


PARTE 2

Debatendo

Foi então que eu percebi, estando cara-a-cara com a morte, que o que eu sentia não era raiva, mas pura incredulidade.
A Morte disse:
- Se deixar que eu o ajude, prometo que quando acordar terá encontrado a resposta que procura.
Engraçado como as coisas começavam não ser exatamente o que pareciam.
- Mas... – algo curioso me ocorreu. - ... se você é a morte, por que perderia tempo ajudando alguém? Você por um acaso tem outra função que não nos levar deste mundo?
- Creio que ambos sabemos que eu sou você.
Sim, bastou que ela dissesse as palavras para que tal fato também se tornasse oficial para mim.
- Está bem – eu assenti. – Nesse caso, diga, qual é minha dúvida?
- Lamento, mas só você pode responder essa pergunta. Resta saber se você confia o bastante em si para seguir em frente. Só o que posso dizer é que alguém como você não pode ter uma dúvida como essa.
- Alguém como eu?
- Sim, alguém como você. Vamos, diga qual a função que cabe a você e que acabou por se tornar fonte de tanto tormento.
- Está bem.
Eu só queria acordar.
- Eu sou um aplicador de injeção letal.
- Aplicador de injeção letal... – a morte repetiu como se estivesse surpresa com a revelação. – Muito interessante. E qual a dúvida que um aplicador de injeção letal não pode ter?
- É errado matar qualquer ser humano, ainda que esse seja um criminoso da pior espécie? eu interroguei, agora realmente sentindo que não estava no lugar em que deveria.
- Muito bem – a morte aprovou meu progresso. – E qual a sua opinião?
- Bem, até recentemente eu achava que fazia um bem ao mundo livrando-o de almas tãomaléficas e podres.
- Então acredita que os seres humanos têm alma? Questionou a morte.
- Bem, digamos que sim. Acredito no âmago da existência de cada pessoa, entende? Ou melhor, no que diferencia a presença de um ser humano da presença do outro no todo universal. Para mim esse é o melhor conceito de alma em que podemos chegar por em quanto, considerando-se o que a ciência já descobriu à esse respeito.
- Você dá a entender que o espiritual depende do científico.
- Sem dúvida. Penso que ciência e religião devem andar juntos. O fato é que quando lembro que a verdade existe independente da minha crença pessoal, só consigo imaginar tal verdade sendo imutável tanto do ângulo espiritual quanto do científico, de modo que um seja a prova viva do outro, dois caminhos que acabam por se encontrar no mesmo lugar.
- Excelente – disse a morte, parecendo satisfeita – Só que infelizmente você ainda não sabe qual é a verdade absoluta, não é mesmo?
- Penso que não.
- Eu também penso que não – a morte aderiu - ...do contrário não estaria aqui. E sabe do que mais? Você só irá encontrá-la no dia em que não precisar acreditar em mais nada.
- Entendo o que quer dizer. Refere-se ao dia em que a verdade absoluta for revelada pela ciência.
- Não, refiro-me ao dia em que deixar de acreditar em tudo, inclusive na ciência.
Meu queixo caiu.
- Mas que loucura está dizendo?
- Infelizmente para você – a morte continuou, indiferente. - uma descoberta só é interpretada de um ponto de vista até que alguém prove o contrário. “Ciência” é só um nome que vocês, seres humanos, resolveram dar a um método de investigar coisas. E se for provado que esse método não está apto a lhes revelar uma informação tão complexa? Ou ainda uma informação tão simples? Vocês se veriam obrigados a ver as coisas de outra forma, e o que vocês intendem por ciência iria por água abaixo.
Cilêncio.
- Bom, é verdade que nunca tinha visto a coisa por esse ângulo – admiti. Mas, então, sugere que eu não acredite em nada?
- Eu não disse isso. Disse que deve deixar de acreditar em tudo, e não que não deve acreditar em nada. Sugiro que acredite no que está ao seu alcance.
A última frase ecoou na minha cabeça.
- Está dizendo que não devemos ser os donos da verdade.
- Estou dizendo que por mais forte que seja sua crença, no que quer que seja, não deve abandonar a possibilidade de você estar errado, por mais difícil que seja. Não estou dizendo que o dia em que você enfim poderá abandoná-la jamais chegará, mas você saberá quando isso acontecer quando não conseguir mais mantê-la em sua consciência e não se deparar com nenhuma conseqüência negativa em resposta a tal acontecimento. Não ser o dono da verdade? Poucos fazem idéia do que isso significa.
- E você diria que eu sou um desses poucos?
- Sim, diria. Você me procurou, e não o contrário. Você vive vida e sentimentos com uma intensidade indescritível, e por isso conhece o bastante da própria existência para nunca deixar de conhecer a si e ao mundo que o cerca. Você vê em suas limitações a essência da perfeição, que é o ato de jamais abandonar a busca por ela, o que é claro nada há a haver com você encontrá-la ou não algum dia.
- Esse é o problema – eu disse, sabendo que no momento falar seria melhor do que pensar. – Tenho comigo uma evidência de que matar um ser humano não é a coisa certa a fazer, e não consigo decidir se devo considerá-la ou não.
- A escolha é só sua – a morte destacou a impressão óbvia. – A questão é que, cientificamente falando, você não tem como ter certeza do que acontece com o que vocês, seres humanos, chamam de almas das pessoas que você mata.
- Bem, eu não as chamaria de pessoas, se quer saber. Monstros viria melhor a calhar. Mas, sim, embora eu tenha a minha própria convicção quanto a isso, é verdade que não há provas que a tornem cientificamente genuína.
- Muito bem. Então, me diga: o que você acha que acontece com as almas daqueles que provam da sua agulha fatal?
- Sempre pensei que deixassem de existir sob todos os ângulos. Nunca acreditei em vida após a morte, em reencarnação ou em algo além do que acontece com o nosso corpo. Mas há alguns dias conheci gente que começou a me falar sobre cada alma ter seu próprio caminho a seguir após a morte, que corresponde aos seus feitos como ser humano; que as almas não reencarnadas convivem em colônias, cada uma procurando a que corresponde ao seu perfil: uma alma maléfica se reuni com almas igualmente ruins, enquanto que uma boa alma deverá unir-se à bondade de suas irmãs; e que toda vez que reencarnamos recebemos ou perdemos algo que tínhamos na vida anterior: se somos pobres numa vida, seremos ricos na outra - ou vice-versa, se cortamos a mão de alguém numa vida, nasceremos sem uma mão na próxima, até que nossa alma atinja a plenitude espiritual. Já houve o tempo em que eu dizia que não tinha dúvidas quanto minhas convicções, que o errado era a confirmação do certo e que mistérios eram sinônimo de esperança. E hoje, quando tantos dizem que o fim está próximo, me vejo sem saber no que pensar.
Foi só então que tomei consciência do quão leve eu me sentia, ali parado em meio a escuridão, expondo meus meios e receios com uma empolgação que não sentia há muito tempo, e que só surge nas raras oportunidades que temos de dividi-los com outra pessoa, ou também...
- E você ouviu falar dos médiuns, não é mesmo? A morte adivinhou. - Com certeza soube daqueles que demonstram ser capazes de contatar almas não reencarnadas. Está preocupado com os médiuns que dizem sentir a presença de almas maléficas, entre as quais as que habitavam corpos vitmas de injeção letal; e com os efeitos dessas almas nos corpos dos médiuns que supostamente ainda não têm controle do dom que dizem possuir, ou que mesmo experientes sofrem ao reencontrar uma alma que nenhum bem fez ao seu passado.
- Mesmo que eu não acredite nessas coisas, há quem acredite, inclusive crianças. Para essas pessoas, esses monstros quando mortos ficam em maior liberdade do que teriam se estivessem presos em boas penitenciárias. Sei que o sistema penitenciário ainda tem muito o que melhorar, mas essa é outra história. Bem que eu queria, mas por mais que tente não consigo mais achar que estou fazendo algo bom ao matar monstros, quando pessoas boas sofrem com isso até tanto quanto sofreriam se eles continuassem agindo. Só me falta sentir o que tantos sentem: que eu não sou melhor que os monstros se lidar com eles da mesma forma como eles lidam com suas vitmas; que assim como não cabe a eles decidir quando a vida de outro ser humano deve acabar, também não cabe a nós decidir quando acabar com a vida dos monstros; que muitos monstros tem uma família formada por pessoas boas que não querem ver seus monstros morrer; e que, acima de tudo, dizer que além de matar os monstros também fazem as pessoas sofrer, quando nós apenas livramos o mundo de sua existência, é puro egoísmo de nossa parte, já que nós também não sofremos ao tirar a vida dos monstros. Mas não posso, ainda não.
- Todavia sua decisão agora está tomada.
A morte jamais desvia seu curso.
- Sim, deixarei de ser um de seus mensageiros oficialmente assim que acordar. Se é a decisão certa, não sei. Mas se for, o ser humano não há de querer dar a você tanto trabalho quanto você dá a nós.
A morte nada disse, mas posso jurar que ela concordou.


PARTE 3

Concluindo

- Minha consciência. Eu devia saber que cedo ou tarde você apareceria para me salvar.
- Nada disso. Essa só é a prova de que você salvou a si mesmo. Você reconhece sua consciência, e todo aquele que for igual a você, ainda que caia no buraco mais fundo, encontrará forças para se reerguer.
- Por que diz isso? eu quis saber sem entender ao certo o motivo.
- Porque eu não sou você – disse a morte.
E então eu acordei.





Lucas Borba

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