CRIANÇAS
Dizem que as crianças são manifestações da pureza, e é verdade. Ainda que pareça contraditório, gosto de dizer que elas agem segundo o que são, e não segundo o que acreditam ser. Tive novas provas disso durante o trabalho que realizei com as crianças de terceira e quarta séries do colégio La Salle Caxias, escola em que estudo desde a 7ª série. Sou portador de deficiência visual, e atualmente encontro-me na 3ª série do Ensino Médio, último ano do colegial, e fora o fato de que adoro crianças, creio que por estar partindo para a faculdade foi que se tornou ainda mais gratificante a chance de passar aquela preciosa tarde com seres que estão no comecinho de tudo.
Como ainda sou uma criança no mundo dos adultos, fiquei um pouco nervoso no começo. Ainda não tenho muito jeito para falar em público, e as crianças detectam qualquer sinal de insegurança; mas assim que o trabalho começou, fui relaxando e acabei me soltando, pois se você conhece alguém que consegue ficar nervoso perto de crianças por muito tempo, tome cuidado.
Comecei com a 3ª série. Primeiro, me apresentei: disse meu nome, idade (18 anos), citei as escolas onde estudei antes de chegar no La Salle e informei a eles que sou cego desde bebê por ter nascido com uma doença chamada Glaucoma Congênito. Depois, li para eles um livrinho infantil em braile, intitulado “Um mundinho para todos”, que fala sobre a importância de conviver com as diferenças. Eles ficaram realmente impressionados com o braile e com a velocidade com que eu o lia, e a 4ª série até quis chegar mais perto para ver melhor. Fiquei muito feliz por poder mostrar a eles que o braile não é nem um bicho de sete cabeças, mas que assim como eles aprenderam ler e escrever seus símbolos, com muito treino adquirimos prática em qualquer coisa. Por fim, tentei tocar algumas músicas no violão, mas o instrumento estava desafinado, então acabei só cantando mesmo.
E então começaram as perguntas. Já teriam começado desde o início do trabalho se as professoras que o coordenavam não tivessem pedido às crianças que as deixassem para o final. E elas tinham mesmo muitas perguntas, mas pareciam apreensivas, pois os adultos, sabiamente, lhes dizem para ter cuidado com o que perguntam a alguém, principalmente a um estranho. Em resumo, a sensação de compartilhar parte da sua história com quem você sabe que a interpretará como uma genuína fonte de exemplo, coragem e força para seguir em frente (principalmente quando se está sozinho), e a sua energia com quem é capaz de convertê-la na mais pura felicidade, é mais do que reconfortante. Nos tempos atuais, é o que podemos chamar de paz.
As crianças são mais que a esperança do futuro, são um presente para o presente; e com certeza não digo isso pela caixa de bombons com um cartão em braile contendo os agradecimentos e parabenizações em nome da escola que ganhei na hora da despedida. Só tenho a agradecer a escola pela oportunidade que tive de divulgar mais um pouco a importância de preservar hoje o que ainda há de bom. Mais que para as gerações futuras, devemos dias melhores à criança que há em cada um de nós.
Por Lucas Borba
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
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