Bem-vindo ao blog dedicado ao meu principal objetivo em minha passagem por este mundo, através da divulgação de qualquer material útil ou realmente necessário à humanidade em tempos tão decisivos: textos, músicas, imagens ou filmes de qualquer estilo (sejam obras de outros ou de minha própria autoria). Boa sorte, e divirta-se!, pois a alegria é o primeiro passo rumo à felicidade.

domingo, 3 de outubro de 2010

O QUINTO ELEMENTO


Para Jobis

Há pouco mais de dois anos, na aula de matemática, a professora da disciplina propriamente dita, juntamente com a professora de física e com a coordenadora do SOE (Serviço de Orientação Educacional), realizou uma dinâmica com minha turma, que obrigou meus colegas a recorrer – ou pelo menos a tentar recorrer, aos elementos que são fundamentais para mim, que sou deficiente visual, enxergar sem necessariamente ver. Entre eles estão os sentidos da audição, do olfato, do tato e do paladar. Há, entretanto, um quinto e último elemento, o mais importante de todos, a tal ponto que sem ele a utilidade dos demais se torna quase nula.
As professoras solicitaram que meus colegas vendassem os olhos, e eles assim o fizeram, teoricamente, mergulhando na total escuridão. A seguir, todos recebemos um isopor, um plano cartesiano em relevo e dez alfinetes. Nossa missão, explicaram, era dividida em duas partes. Primeiro, devíamos prender o plano cartesiano ao isopor com os alfinetes. Feito isso, cabia-nos localizar e marcar com os alfinetes restantes os pontos que eram solicitados nas retas x e y. Meu tato e o inseparável quinto elemento entraram em ação. Tendo a devida calma, consegui localizar e marcar os pontos sem maiores problemas. Já meus colegas, como se esperava, apresentaram visível dificuldade, por exemplo, em localizar o ponto central, ou ponto (0, 0), ainda que este fosse identificado com uma textura mais grossa da que compunha o restante do plano cartesiano. Alguns reclamaram que estavam faltando alfinetes. Se de fato estavam, ou se meus colegas é que não obtiveram sucesso em localizá-los, não faço idéia.
Terminada a primeira parte da dinâmica, as professoras pediram que todos levantassem de suas carteiras e ficassem de mãos dadas, de modo a formar uma corrente. A ordem que nos foi dada a seguir foi simples, executá-la é que se revelou ser um desafio dos grandes para meus colegas, que, é claro, deviam continuar de olhos vendados. A porta da sala foi aberta, permitindo nossa passagem para o corredor em que devíamos caminhar às cegas, orientados pela professora de matemática, que ia na frente, guiando a turma. A professora de física, a coordenadora do SOE e até o zelador da escola andavam logo atrás, observando o desenrolar dos acontecimentos. Foi por isso, dado o modo como a atividade foi realizada, que não precisei da minha bengala para andar com facilidade. É verdade que com o avanço, seja por afobação ou por confiança em demasia, muitas mãos se soltaram, mas o que conta é que, independentemente, ninguém se deu por vencido. Nos achávamos no segundo andar da escola. A corrente – ou algo que devia lembrar uma corrente, foi conduzida até o extremo esquerdo do corredor, em que se encontram as escadas de acesso aos demais níveis do prédio. Devagar, entre manifestações de pura incredulidade e insegurança, toda turma desceu as escadas até o primeiro andar. Lá chegando, caminhamos pelo corredor que se estendia a nossa direita até a extremidade oposta, onde uma porta indica a entrada do Audiovisual. A porta foi aberta e todos entramos no aposento, já tateando a procura das carteiras em que devíamos nos sentar. Só então as professoras permitiram que meus colegas retirassem as vendas e descobrissem onde se encontravam.
Não reparei em ninguém que não tenha ficado surpreso ao constatar qual sua real localização. O que é claro, tão pouco me surpreendeu, tendo em vista a óbvia ausência que cada um deles tem do quinto elemento em momentos como este, em que todas as luzes se apagam. A este elemento damos o nome de EXPERIÊNCIA. É ela a recompensa por todos os momentos ruins, além dos bons, que vivemos durante a vida, e a origem da consistência de nosso caráter.



Por Lucas Borba

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